Nascida a 8 de Março
Case study 1
Sei de uma senhora que fez ontem oitenta e três anos. Detesta festejar o aniversário, pois acha tolice comemorar o empilhamento de anos e recebe de mau grado prendas de familiares. Prendas de conhecidos recebe com o mais verdadeiro não se devia ter incomodado que alguma vez vi. Ainda detesta mais a coincidência de terem plasmado no "seu" 8 de Março um Dia Internacional da Mulher, pois acha absurdo comemorar uma inevitabilidade, ainda por cima infeliz. Já não bastava à Mulher a má sina de ter nascido mulher, ainda lho esfregam na cara. Porque não um Dia Internacional da Dismenorreia? Ou Dia Internacional da Depilação com Cera? Sim, que ela é crente firme na superioridade da condição masculina e lamenta profundamente não ter nascido homem. Como lamenta cada filha que não lhe nasceu filho. Não por ela, mas pelas filhas, coitadas.
Estranho este argumento da parte de uma matriarca, a última de várias gerações de mulheres com personalidade abrasiva e espírito indomável, que tomaram decisões sobre destinos familiares e geriram patrimónios em épocas de pianos e bordados. Quando escavo para além da superfície dos inevitáveis pormenores fisiológicos ou encargos de observância de cânones de beleza, descubro que a má sina de ter nascido mulher passa pelo limite da escolha. Na sua juventude, havia caminhos impossíveis e barreiras sociais insuperáveis no feminino. Que ela mantém vivas, porque as verdades são imutáveis e lhe foram incutidos valores de ferro. É muito triste ver uma mulher inteligente, que liderou famílias, comandou negócios e sentenciou caminhos, sem embargo ou peia de género, assumir inferioridade por natureza.
Case study 2
Fez ontem trinta e quatro anos e festejou com o enfado de ter de acumular data tão importante com a parvoíce do Dia Internacional da Mulher. Ela, que nunca na vida foi discriminada e até desconfia que tal só acontece a mulherzinhas débeis e incompetentes. Ela, que foi sempre a melhor aluna de todas as turmas, respeitada por colegas e professores. Ela, que é uma profissional invejada, cortejada e admirada, com elevado rendimento e muitos dependentes. Ela, que é a melhor no que faz e nunca precisou de quotas para vencer e convencer. Ela, que tem um marido de sucesso para quem as conveniências conjugais são imperativos de vida. Ela, que teve filhos sem ter prescindido de nada pela maternidade. Ela, que é feminina sem deixar de ser uma líder de homens. Ela, que no dia em que o macho da espécie lhe estendesse a face da violência ou do paternalismo, seria implacável no desagravo, o rifaria com estrépito e receberia a competente indemnização. Ela, que não gosta de feministas porque são gajas básicas e mal amadas. Ela, que acha o feminismo uma assunção de menoridades... Ela, co-festejar no Dia Internacional da Mulher? Que toleima! Arranjem um Dia Internacional do Homem e quando entregarem, à entrada do centro comercial, um cravo azul a todos os tipos, aí, sim, ela receberá a rosa cor-de-rosa com que ontem insistiam em a agraciar.
Gosto muito das minhas duas espécimes, nascidas, com quase cinquenta anos de diferença, a oito de Março. Ambas - de forma diferente que o o tempora! o mores! não perdoa - são bons soldados na causa da igualdade. Embora recusem a militância. E a própria causa. O que é o maior sinal de que a discriminação existe, está viva e não se recomenda.
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